Carlos Semedo
Natividade
A Natividade entre os Profetas Isaías e Ezequiel, de Duccio di Buoninsegna, é uma obra maravilhosa. A expressividade dos Profetas anunciando o nascimento de Cristo, os anjos e santos tentando ver a criança, Maria em destaque, ao centro, no estilo Bizantino, um rebanho de ovelhas, o seu pastor, o cão, a vaca e o burro, todo este quadro me transporta para uma leitura complexa do tempo natalício. José, vestido de rosa, está separado de Maria, talvez para reforçar a ausência de mácula na concepção da criança e, mesmo na base da obra, uma mulher lava docemente uma criança.
Não é difícil imaginar o impacto que uma imagem como esta teve na época, mas o mais fascinante é o facto de ainda hoje, num tempo no qual vivemos submersos em apelos visuais, esta peça mantém uma força e poder notáveis.
Quando destaco a leitura complexa, não quero de forma alguma colocar esta crónica num patamar para o qual não estou preparado e que é o da erudição, teológica ou outra. Desejo apenas convocar a necessidade absoluta de dar consistência ao nosso quotidiano através do contacto e compreensão de obras artísticas que são um património inesgotável e que ajudam a dar sentido à nossa existência.
Um Natal vivido apenas nas catedrais do consumismo mais primário, por mais economia que movimente – sim, tenho consciência de que qualquer trabalho digno é um bem – esgota-se em dois ou três dias. Um Natal fundado na História, no amor e na esperança, com ou sem crença, tem uma substância que amplia o seu efeito para o quotidiano, durante o resto do ano.
Desde logo porque para se compreender uma obra como esta é necessário contemplá-la, com tempo, sem pressa. Quem quer ouvir a Oratória de Natal de J. S. Bach, sabe que terá de dispor de cerca de duas horas e meia da sua vida, dominar a língua alemã ou acompanhar o texto numa tradução. O mesmo é válido para o Messias de G. F. Haendel. É toda uma experiência pessoal e colectiva que implica uma atitude contemplativa nada harmonizável com a superficialidade dos Jingle Bells que inundam o espaço sonoro desta época.
Depois, porque se torna necessário perceber que personagens estão representadas e qual o seu enquadramento na história do nascimento de Cristo. É necessário prestar atenção à composição, ao peso de cada figura – a dimensão de Maria!- e à expressividade do autor. Também é importante saber que, na época, estas peças eram observadas com uma luz completamente diferente, geralmente com o auxílio de velas. Já o escrevi mas julgo ser importante repetir: na época, a quantidade de imagens a que as pessoas eram sujeitas era tremendamente inferior à da nossa era, o que amplifica de forma brutal o efeito que a mesma provocaria nos contemporâneos do artista de Siena.
No fundo, trata-se de aproveitar o Natal para ir mais além da superfície. Escavar mais profundo e mudar a nossa vida. E isso faz-se, desde logo, conhecendo muito melhor a história e o património do sítio onde vivemos. Quando conhecemos pormenores históricos da nossa cidade, abrem-se novas portas para o relacionamento com a mesma. E quando o madeiro estiver a arder mesmo em frente à Sé, lembre-se que a sacristia de S. Miguel é uma das peças notáveis mais desconhecidas da região.
Feliz Natal e um 2014 pleno de Esperança.