Desassossego - José Lagiosa
Campanha II
Home sweet home. Este nome adotado para a carrinha que nos levou durante a campanha de abril de 1976 não podia ter sido melhor escolhido. Realmente durante as três semanas que andámos na estrada, somente uma vez fomos a casa, precisamente no domingo em que decorreu o comício no antigo estádio da FNAT, hoje 1º de Maio.
Durante todo o tempo palmilhámos milhares de quilómetros, ao longo de Portugal, desde o Minho ao Algarve. Só não fomos, por razões óbvias à Madeira e aos Açores.
Para além do episódio ocorrido em Carrazedo de Montenegro e que vos contei há quinze dias, outros ouve que mereciam destaque, aqui neste espaço. Vou abordar unicamente dois: o primeiro que aconteceu no Tortozendo e que foi nada mais, nada menos do que uma ação de militantes do PCP, que visavam desestabilizar a nossa campanha e conseguir alguns dividendos, quando a zona tinha grande atividade têxtil e votava maioritariamente mais à esquerda. De nada lhes valeu já que ganhámos as eleições no concelho da Covilhã e no distrito de Castelo Branco, a segunda de cariz mais pessoal e que se passou, em Viseu, quando perante um grupo de rapazes e raparigas da JS local resolvi, responder a um comentário de uma das raparigas. Acabou por terminar em casamento um ano e três meses depois. Estou a falar da mãe das minhas duas filhas mais velhas. É óbvio que foi um episódio que me marcou, apesar do divórcio que acabaria por acontecer treze anos mais tarde.
Mas o mais relevante foram as amizades construídas entre aqueles companheiros de route, com os quais perdura uma amizade fraterna, apesar de não nos vermos frequentemente. Exemplo disso, é aliás, o que aconteceu aquando do lançamento do livro de José Sócrates, em Lisboa, no Museu da Eletricidade, reencontrei a Isabel Soares, filha de Mário Soares e sua companhia ao longo de toda essa campanha de 76, que já não via há cerca de 30 anos, que ao falar-lhe da carrinha Home sweet home e dos malucos da JS, logo exclamou, Lagiosa…
Eram, sem dúvida, outros tempos. Éramos novos, as experiências marcavam-nos muito, mas fundamentalmente o espírito de camaradagem era outro, alicerçado noutros valores onde a palavra amizade tinha realmente peso, importância e era verdadeiramente sentida.