José Dias Pires
ENTRE O PRECIPÍCIO E A PLANÍCIE
Este planalto pantanoso e lúgubre em que, a passos de gigante, se vai transformando a realidade nos nossos mundos (global, nacional e local), coloca-nos perante um emergente risco que é hoje mais que uma evidência: estarmos entre o precipício para um desconhecido perigoso, ameaçador e imprevisível (que se agiganta) e a planície prometida quando mudámos para o século XXI (que se desvanece). O mesmo é dizer: estamos já a ser confrontados com a desconformidade dos mais elementares valores construtivos da humanidade - liberdade, igualdade e fraternidade, perante os redutores princípios de muitas das novas lideranças que a nível global, nacional ou local nos avassalam promovendo vontades de sujeição, desigualdade e egocentrismo.
Falo de lideranças reais e (pasme-se) eleitas ou potenciais empurradas eleitoralmente por uma habilidosa desinformação por muitos de nós alimentada.
Dos tempos são estes os sinais: os senhores de todas as guerras, na sua pequenez (ilusão nossa?), julgam-se gigantescos heróis, e lançam as suas armas mascaradas de risonhas pombas (embora saibamos que elas não conseguem sorrir), como se fossem lápis do céu a desenhar, em branco, os riscos do silêncio que antecipam todas as mortes, especialmente a morte da esperança onde se devia, sempre, sustentar o nosso presente e, principalmente o futuro dos nossos filhos e netos.
Globalmente, todos os senhores das guerras, sejam elas físicas e brutais (como as da Ucrânia e de Gaza), económicas e civilizacionais (como as produzidas pela desenfreada e despudorada globalização dos interesses, controlada a partir de Silicon Valley, Zhongguancun e Zelenograd predadoras de todos os mundos que não sejam o primeiro mundo dos privilegiados donos das industrias armamentistas) imitam, no pior, os irracionais (sem se importarem minimamente com isso).
Nacionalmente, os candidatos a oficiais-generais do efémero (aprendizes risíveis dos tais senhores das guerras e habilidosos pseudo servidores do bem comum) constroem mentiras, através de provincianas manigâncias e perigosos foguetes de lágrimas municiados por artimanhas, benefícios e favores de quem vive permanentemente numa convicção de impunidade.
Depois há os títeres locais e os seus manipuladores (também estes muito perigosos). Os primeiros, marionetas iludidas pelos efémeros pequenos poderes, ignoram que no fim nas suas mãos ficará somente areia; os segundos, disfarçando as suas telhas de vidro e os seus rabos de palha, agem à espera que os ponteiros do relógio construam a ilusão de um estio tranquilo povoado de fogos postos estrategicamente colocados pelos seus arregimentados servidores.
E aqui chegamos: aos poucos passos que nos podem projetar no precipício ou oferecer ainda a possibilidade da planície que o tempo parecia oferecer-nos.
Muitos de nós, assistimos, distraídos, à dissolução do que julgámos ter por garantido, apostando no efémero, no fácil, no não incomodativo “deixar andar” através das mãos e gargantas dos que, tendo tudo, não têm coração, porque ninguém nem nada os aquece e, usando a nossa distração, sabem esperar pela construção das teias que a tudo e a todos nos podem enredar.
E não nos enganemos: global, nacional e localmente, os senhores de todas as guerras sabem na perfeição os rombos que farão as suas ordens, as suas ofertas, as suas subtilezas e os seus subornos, porque é no verbo ter que se perfilam e lhes dói sempre a conjugação do verbo ser.
Os senhores de todas as guerras, para disfarçar a tontura perigosa do seu pensamento e o veneno das suas palavras e ações, falam-nos sempre do presente que corresponda aos seus interesses, do imediato que se subjugue à sua vontade e do facilitismo acéfalo (de “fazer qualquer coisa grande de novo”, à moda de Trump).
Depois, esperam que não haja em nós vontade de descobrir o que nos calam para gritar, sem medo: CONVOSCO NÃO!
Um não às palavras teatrais e à vertigem que as rói por dentro! Um não aos donos dos aviões e tanques e aos que se sustentam da sujeição e exploração dos outros, quais parasitas! Um não aos que se reproduzem na tontura da guerra onde não há espírito, nem deus ou salvação! Um não aos que usam as promessas para dizer que vão salvar o mundo, o país e a nossa terra sendo, de facto (e conscientemente) a sua perdição!
Só nos resta um caminho: encher a planície de nãos para evitar cair no precipício!