Edição nº 1886 - 12 de março de 2025

NO ANIVERSÁRIO DA GAZETA DO INTERIOR
Desenhar a capa de aniversário de um jornal. Por onde começar?

Penso no meu exercício madrugador: olhar a banca do quiosque e a confusão das capas nos escaparates ... Me enche de alegria e preguiça/Quem lê tanta notícia ..., uma inquietação nos versos de Caetano Veloso. Sei lá onde tudo começou, um vício de todas as manhãs: comprar o jornal, sentar-me à mesa do café, tomar a bica. Um ritual que dava o tom para a jornada e que agora, continuando a ser um hábito, é mais um acto de sobrevivência. A cidade implode, cada vez mais gente concentrada, mas paradoxalmente medra uma epidemia silenciosa: a solidão. Já quase nada sabemos uns dos outros mas, a toda a hora, dão-nos como companhia autênticos tsunamis de informação.
Qualquer teoria sobre capas, inevitavelmente, fala em proteger, resguardar, esconder. Mas eu quero é espreitar, porque aprendi que por detrás de cada palavra espreitam sombras. Camões tinha outro recado ... O mundo todo abarco e nada aperto ... É tudo quanto sinto um desconcerto ... Agora espero, agora desconfio, Agora desvario, agora acerto ... Se me pergunta alguém porque assim ando, Respondo que não sei; porém suspeito ...
Nesta avalanche a dificuldade é organizar (filtrar!) tanta informação para conseguir decifrar o mundo. O que nos faz continuar a parar e olhar a barafunda dos escaparates, na banca dos jornais? Cada dia outro jornal e renasce a expectativa. Espreito, página a página, letras e manchas que tentam seduzir-me. É verdade que podem ser enganadoras, talvez nem tanto, e que sendo agradáveis, podem ser fúteis. Mas não desisto, permanece a esperança em algo que me conforte o coração.
Intuitivamente folheio o jornal do fim para o princípio; outro hábito com origem desconhecida. É como rebobinar um filme onde as palavras, uma vez desordenadas, ficam livres. Com elas tento fazer outro puzzle evitando as instruções do fabricante. Algo semelhante ao que Perec fez com A vida modo de usar.
Gosto do jornal que me deixa espaço para pensar. Gosto de entrar nas palavras como entro na casa desabitada. Uma vez libertadas podem adquirir novas imagens.
O director João Carlos Antunes pede-me uma capa e, de repente, é como se o tempo regredisse aos anos 60, quando entusiasmados fazíamos jornais policopiados no liceu.
Continuaremos a simular viagens, sem sair do mesmo sítio. E o pássaro ancestral, aqui um brinquedo de lata, continuará a ter corda para sucessivas voltas ao mundo.
Na circulação descontrolada das notícias, a velocidade não nos dá tempo para grandes festas. Entre utilidades e inutilidades sentimos a incompreensão, a intolerância, o desconcerto.
A capa convida o leitor. Pode ser uma janela, uma porta, um écran. Uma oportunidade para a fuga. Para entrar ou saír. Quem tem capa sempre escapa!
A síntese possível para um jornal no interior, já com trinta e seis anos …... é de se lhe tirar o chapéu (embora eu não tenha chapéu).
José Manuel Castanheira
Março de 2025

12/03/2025
 

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