João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
COM UM MARÇO, diria mesmo, um inverno, como há muitos anos já não se via, de tantos dias seguidos de chuva quase contínua. Eram estes os dias de férias do meu pai, pequeno agricultor que como outros esperava, com grande parte do dia passado à lareira, que voltasse o sol para retomar a horta, as sementeiras ou os trabalhos agrícolas da época. A chuva foi um bom pretexto para eu ir até ao clube da minha aldeia, conversar e presentear-me com uma tradição que me transporta aos tempos de juventude. Dia de carnaval, dia de se comer a ôlha. Se se for ao dicionário não encontra a definição daquilo a que aqui se chama ôlha. Mas na minha aldeia há este hábito bom de inventar palavras para as coisas. São as bataratas, são as ameixas ceroulinhas (acredito que é uma corruptela do espanhol ciruela, em diminutivo por ser mesmo pequena) que só muito recentemente descobri serem as maribelle que dão uma deliciosa compota, é o pascal bolo de mel, um nome totalmente fake porque não leva mel e é o que noutros sítios da Beira chamam de bolo de festa, bolo finto ou bolo dormente e na conversa também se lembrou, quase a lamber os beiços, a bufeira. Passem por cima do nome, a lembrar inconveniências, porque era simplesmente o melhor produto do fumeiro, feito em pequena quantidade como todas as coisas boas, mas que o fim da matança tradicional do porco enterrou no campo das memórias.
Quanto à ôlha, simples como só podia ser coisa feita pela garotada, são ovos mexidos numa fritura de enchidos, chouriça, morcela, farinheira… Comia-se no dia de carnaval, com os produtos recolhidos pelo grupo de rapazes, acompanhados por um acordeonista, que corriam a aldeia a pedir um ovo e uma peça de enchido. O ovo dava-se de boa vontade, a chouriça, ainda no fumeiro produto da matança do porco, já não era tanto assim. Mas havia maneira de distrair a dona da casa enquanto algum de nós, muitas vezes até familiar próximo, surripiava da vara do fumeiro a tal chouriça desejada. Ela fingia-se zangada e atirava com um sorriso disfarçado: o diabo da canalha lá me foi ao fumeiro…
E foram estas tradições de uma gastronomia que se orientava pelo calendário, em datas ou épocas bem determinadas do ano que foram lembradas numa tarde de chuva no clube da aldeia enquanto se comia uma saborosa ôlha, confecionada por quem este ano, com as suas migas de peixe do rio, em representação da Confraria dos Sabores de Benquerenças, ganhou o primeiro prémio do Concurso Gastronómico Sabores da Nossa Terra.
E continuando na mesma onda, quero registar aqui que há pouco tempo, numa quinta-feira, fui com amigos almoçar ao Centro de Ciência Viva da Floresta, nas Moitas. Esta informação não teria relevância não fosse o caso de ter acontecido na Cafetaria officinalis, uma cafetaria inclusiva, resultado do prémio Capacitar 2023 para o Projeto Bioaromas LIIS que promove a inclusão social na comunidade e a diminuição das desigualdades no acesso ao mercado de trabalho, dos jovens e adultos portadores de défice cognitivo. Fiquei conquistado pelo espaço acolhedor, pelos aromas e sabores de uma refeição quase requintada e sobretudo pela simpatia, alegria e profissionalismo do grupo. Fica a sugestão: terça ou quinta, telefonem para o Centro de Ciência Viva, marquem a vossa refeição, na certeza de que vão ter uma agradável surpresa. Ali perto, nas Moitas, há também um segredo gastronómico bem guardado. Mas esse não o digo aqui.
Em dia de aniversário da Gazeta do Interior, não quis trazer para estes apontamentos os dramas e os vilões deste Mundo, preferindo convidar-vos a fazerem esta prazentosa viagem nos sabores da nossa terra. Bem-haja por estarem connosco!