Edição nº 1875 - 25 de dezembro de 2024

NO CONCELHO DE IDANHA-A-NOVA
Em Proença-a-Velha o Madeiro é puxado à corda

Uma notável tradição genuína anualmente celebrada em Proença-a-Velha, antiga vila do Concelho de Idanha-a-Nova, em que participa ativamente toda a população. Há décadas, a iniciativa era dos rapazes das sortes. Mais recentemente é a Associação Provençal - Liga do Desenvolvimento de Proença-a-Velha, que enquadra a organização. Desde que há memória, pelo menos há uma centena de anos, como mais recentemente, independentemente do núcleo organizador, a característica essencial e marca indelével desta tradição é a entreajuda e a vivência espontânea genuinamente comunitária de todo o povo, quer residentes, quer as muitas famílias que aqui têm as suas raízes. O seu ponto alto está no cortejo de puxar o madeiro em que a união faz a força.
Na noite de 7 para 8 de dezembro juntam-se os homens no Sítio do Sobreiral para onde é trazido um grande tronco seco, o Madeiro, que é colocado em cima de dois carros de bois ligados por correntes pelas partes traseiras e decorados com folhas de palmeira dispostas em arco.
Na parte da manhã do dia 8, os carros com o tronco do Madeiro são decorados por um grupo de mulheres com ramagens e flores não faltando os ramos de laranjeira com bastantes laranjas. Presa ao carro dianteiro é estendida uma grande corda forte, designada popularmente por calabre. Sensivelmente de metro em metro são enlaçadas na forte corda travessas de madeira, aqui designadas por trancas, de modo a que de cada um dos lados da corda duas pessoas as possam pegar para puxar os carros com o Madeiro.
No Sobreiral, junto a uma grande fogueira, durante a manhã do dia 8, um grupo de homens prepara a refeição comunitária que antecede o cortejo do Madeiro. Em grandes mesas são colocados os produtos típicos da terra que cada família oferece. O pão; o vinho; os queijos; as azeitonas retalhadas e, sendo ali mesmo assadas: sardinhas e carne de porco. Ao almoço juntam-se as famílias em alegre convívio gastronómico comunitário. Residindo na aldeia em permanência cerca de 100 pessoas, em dia de festa são várias centenas que acorrem à sua terra natal com os seus familiares e amigos de todas as idades, com destaque para a juventude.
No final do almoço, todas as pessoas se dirigem aos carros do Madeiro e vão tomando lugar ao longo da corda. Os homens mais novos nas trancas junto aos carros e, logo a seguir todas as varas são ocupadas indistintamente, mas com os mais jovens e até algumas crianças bem à frente orientadas por um adulto que segura a ponta da corda.
À voz de comando que é dada do carro do Madeiro e percorre de entusiasmo a centena de pessoas do cortejo, avança-se em passo lento e decidido. Lá à frente, ouve-se o búzio em chamamento e a marcar o ritmo, som profundo das raízes telúricas que moldou a comunidade.
Nas várias paragens do cortejo em que se bebe vinho, jeropiga e sumo para as crianças, logo na primeira, na Zona da Devesa, é lançado um entusiástico coro de vivas:
Viva o Madeiro do Menino Jesus…Viva!
Viva o Sr. Sérgio Torrão…Viva!
Viva o José Pereira da Carvalheira…Viva!
Viva o Jorge Adónis…Viva!
Vivam os utentes do Centro de Dia…Viva!
Viva a sua direção…Viva!
Viva os seus quadros sociais…Viva!
Viva o pessoal da Devesa…Viva!
Vivam os solteiros…Viva!
Vivam as solteiras…Viva!
Vivam os casados…Viva!
Vivam as casadas…Viva!
Vivam as viúvas…Viva!
Vivam os viúvos…Viva!
Vivam os divorciados…Viva!
Vivam os mal casados…Viva!
Viva quem nos ajudou…Viva!
Porra pra quem não deu nada…porra!
Em todas as paragens em que se incluem os agradecimentos e os bairros concretos, começa-se sempre com Viva o madeiro do Menino Jesus e termina sempre com Viva quem nos ajudou e Porra pra quem não deu nada.
Ao longo do cortejo são cantadas quadras populares relativas ao Natal:
Ó meu menino Jesus
Ó meu Menino tão belo
Logo vieste nascer
Na noite do caramelo.
E como refrão: Natal, natal,
Natal, natal,
Filhoses com vinho
Não fazem mal.

De quem são as camisinhas
Que se deram a talhar
São do Menino Jesus
Para a noite de Natal.

Refrão.
Quando o cortejo entra na povoação há nova paragem, novos vivas e nova rodada de bebidas.
No Largo da Praça, à ordem “trancas ao alto” inverte-se o sentido, mudando-se as correntes de carro, com a corda e as varas a serem estendidas em direção da Igreja Matriz. Chegado o cortejo em frente ao cemitério, ao lado da Igreja, depois de nova sessão de vivas é descarregado o Madeiro logo seguido de outros troncos que vieram carregados em tratores. Ali fica para ser acendido na noite de Natal.
Os carros de bois, a corda e as trancas são arrumados e toda a população se dirige ao Salão Multiusos para o baile, o designado balho do madeiro. O convívio comunitário é continuado ao som genuíno das concertinas que substituíram as harmónicas de boca, antigamente muito populares.
Lopes Marcelo

24/12/2024
 

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