Maria de Lurdes Gouveia Barata
TEMPO DE OVOS DE PÁSCOA E TEMPO DE PISAR OVOS
Estamos a dois passos da Primavera e os lugares à nossa volta mudam de cor – as flores sobretudo são anunciadoras de mudança e oferecem a beleza do campo, dos jardins, dos vasos nas varandas da cidade. A Primavera traz o novo ciclo da vida e a abóbada mais azul do firmamento promete ajudar. Gulodices de insectos têm saciação assegurada, gulodices de seres humanos afiançam-se nas amêndoas, no chocolate dos coelhinhos sorridentes e dos ovos de Páscoa, que este ano a efeméride logo calha no último dia de Março.
Já que falei em ovos de Páscoa, que se tornaram um símbolo da época, digo da sua aproximação à Primavera pelo significado de fertilidade e nascimento. Na história da humanidade registam-se culturas antigas que atribuíam especial importância aos ovos e havia povos que em determinadas ocasiões presenteavam outras pessoas com ovos de galinha. Este relevo dado ao ovo, para além das culturas pagãs, liga-se também ao cristianismo através de histórias e lendas, não havendo neste momento espaço para referências.
Todavia, acrescento uma curiosidade (de que tomei conhecimento recente): segundo uma lenda parece que o coelho foi o primeiro ser vivo a presenciar a ressurreição de Cristo. Conforme consta, um coelho teria ficado preso no túmulo de Cristo, descoberto por Maria Madalena quando, depois da crucificação, resolveu ungir o corpo de Cristo e já não o pôde encontrar – o túmulo estava aberto. Seja como for, enche-se de fascínio este toque de maravilhoso da lenda. O coelho sempre foi um animal conhecido pela sua fecundidade e por ser muito visto na Primavera, sobretudo na Europa. Na tradição germânica, na literatura de finais do século XVII, aparece a «Lebre de Páscoa» como figura mítica que oferecia ovos às crianças de bom comportamento, uma espécie de Pai Natal da Primavera.
Não obstante, voltemos ao ovo e ao simbolismo de fertilidade e nascimento e regeneração contínua da vida. Nesta linha, assemelha-se, na mitologia chinesa, através de contos, a criação do Universo que se deu pela quebra de um ovo, nascendo o deus Pan Ku. O Universo de forma oval era afirmado pelos romanos e na Idade Média houve quem acreditasse que o aparecimento do mundo tinha relação com um ovo.
Crença e tradição arreigadas foram contributo para o ovo e o coelho se tornarem símbolos poderosos e reinantes na época pascal. Não se sabe com evidências quando os ovos começaram a ser enfeitados e coloridos. Os persas, durante o Noruz (Dia Novo), festa tradicional da Ásia Central, que ocorria no equinócio da Primavera (primeiro dia) marcando a renovação da Natureza, portanto próximo da Páscoa, enfeitavam os ovos antes de consumi-los. A celebração do Noruz concretiza-se há pelo menos 3000 anos. Poder-se-ia referir várias mitologias de povos e países diversos onde o hábito de pintar ou decorar os ovos aparece. É longo o campo da investigação. Ainda assim, vou referir os ovos de Páscoa da família Romanov, no tempo do czar Alexandre III, uma arte luxuosa que ganhou fama. São também conhecidos por ovos Fabergé – Peter Carl Fabergé era um famoso joalheiro russo e entre 1885 e 1910 foram-lhe encomendados cinquenta ovos pelos czares Alexandre III e Nicolau II. O primeiro referido ofereceu um desses ovos à Imperatriz Marie Feodorovna, sua mulher, e no seu interior trazia um relógio cravejado de safiras e diamantes. Daí que possamos falar de luxo.
Os ovos de chocolate surgiram mais tarde, no século XVIII. Os confeiteiros franceses resolveram fazer a experiência (esvaziar ovos e enchê-los de chocolate) e durante dois séculos os ovos de chocolate foram caríssimos. Depois vulgarizaram-se, transformaram-se em chocolate e tornaram-se símbolo de Páscoa.
O ovo é símbolo universal: nascimento, criação e germe de energia vital e renovação. Os alquimistas ancoram na ideia de germe, um «ovo cósmico», génese do mundo, potencial da vida e da perfeição. É a união de energias, uma vez que a gema representa o feminino (o óvulo) e a clara o esperma masculino. Assume deste modo uma simbologia de totalidade.
Na língua, a palavra ovo circula em expressões idiomáticas expressivas por adaptação a determinado contexto. Sair da casca do ovo é ser senhor de si, tornar-se independente; cacarejar e não pôr ovo é falar muito e não fazer nada, prometer sem cumprir (imaginamos muitos exemplos); galinha dos ovos de ouro é referir um motivo de riqueza. Há muitas mais expressões, mas deixei para o fim PISAR OVOS que faz parte do título deste artigo. É dedutível que pisar ovos ou andar sobre ovos exige tomar muita cautela, é agir com toda a precaução (os ovos são frágeis) e estamos em época dessa prudência, que se torna ponderação sobre o tempo que vamos vivendo: o das alterações climáticas, o das incertezas políticas que arrastam perigos de extrema direita, o das guerras que esmagam tão cruelmente vidas humanas inocentes (a guerra da Ucrânia e a do Médio Oriente, exemplos acutilantes), o das hipocrisias e enredos malévolos, características dos sem carácter, que não olham a meios para atingir fins de puro interesse pessoal, o do egoísmo, por arrastamento o da falta de fraternidade humana.
No entanto, há sempre uma Primavera a chegar!