Edição nº 1836 - 20 de março de 2024

João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...

DIZIA-ME POR ESTES DIAS uma amiga minha, pertença de uma classe média que não vive propriamente de forma desafogada, que cada mês luta por contas certas, que, pela primeira vez, comprou numa grande superfície azeite misturado com óleo. Aliás, uma forma de apresentação do produto alimentar, tal como a mistura de azeite refinado com azeite virgem, de que nunca tinha dado conta nas prateleiras. Só agora fez esta descoberta, na busca de um azeite a preço que não pesasse muito no seu cabaz de compras...
O que está a acontecer é mais sério do que aquilo que aparenta à primeira vista. É também um problema de saúde pública. Estamos a falar de um produto estrela, da chamada dieta mediterrânica, saudável, base dos hábitos alimentares de um número ainda significativo de portugueses. Investigadores têm associado a longevidade em populações de algumas regiões mediterrânicas, aos hábitos alimentares que incluem consumo regular de azeite. Conforme se declara no ponto quatro da Declaração de Barcelona da Dieta Mediterrânica, de 1996, são características essenciais da dieta mediterrânica tradicional o consumo abundante de cereais e seus derivados (massa, pão, arroz...), legumes, fruta, frutos secos, verdura e hortaliça (…). Estes alimentos são condimentados habitualmente com azeite e acompanhados pelo consumo moderado de vinho na refeição. Tudo isto de acordo com costumes, hábitos e crenças religiosas. E a Declaração apela à comunidade internacional, aos governos, que dada a importância para a saúde pública, devem incentivar esta dieta saudável. No caso do azeite, do bom azeite, porque é rico em vitamina E, gorduras monoinsaturadas e polinsaturadas. E para além de outros bons motivos para o consumo regular de azeite, ele ajuda a baixar o colesterol “ruim”, e aumenta os níveis de colesterol “bom”; contribui para o controle da pressão alta; previne doenças cardiovasculares, porque melhora a saúde dos vasos sanguíneos e reduz a inflamação; e porque a ação anti-inflamatória do azeite faz reduzir o risco de diabetes.
Por tudo isto, o que está a acontecer com os preços de comercialização tem implicações com a nossa saúde. Porque, não se tenha ilusões, haverá agora uma fatia importante de consumidores que não vai conseguir continuar a manter o seu hábito alimentar. Vai passar a consumir azeite de pior qualidade, misturas ou poderá substituí-lo por óleos. Porque um espantoso aumento de quase 70 por cento no preço ao consumidor, o maior verificado entre todos os países europeus, num ano em que a produção até nem foi das piores dos últimos anos, faz pensar duas ou mais vezes antes de colocar a embalagem no carrinho de compras. Já se sabe que houve uma descida acentuada na aquisição e também na exportação. Lembramos que nos anos sessenta, o consumo de azeite caiu para níveis tais que levou ao abandono de muitos olivais. Porque não resistiu à campanha agressiva dos óleos alimentares que na altura estavam a entrar em força nos mercados. Agora poderá não ser tão grave, esperemos que o mercado se autorregule, dirá qualquer liberal. Será?
Estas linhas foram escritas por alguém que, felizmente, nunca comprou um litro de azeite sequer, numa superfície comercial, porque produz o suficiente para auto consumo. E que tem o saudável hábito, julgo eu, de substituir sempre que possível a manteiga por azeite. Estes preços loucos até poderão trazer uma consequência interessante, a da recuperação de alguns pequenos olivais abandonados nas nossas aldeias e de termos os campos mais cheios de vozes na época da apanha da azeitona.

20/03/2024
 

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