Lopes Marcelo
ELOGIO DA SEDE
O tema de hoje corresponde ao título de um livro de uma das personalidades culturais mais ricas do nosso tempo se bem que não das mais conhecidas, porque não badalada na comunicação social. Refiro-me a José Tolentino Mendonça, poeta, sacerdote e professor, que nasceu na ilha da Madeira. Enquanto viveu em Lisboa exerceu actividades académicas e pastorais, designadamente vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (onde se doutorou em Teologia) e capelão da capela do Rato, a par de consultor do Pontifício Conselho para a Cultura (órgão do Vaticano). Mais recentemente foi chamado para Roma para estudar e dirigir os arquivos da Santa SÉ.
Anualmente, durante a Quaresma, o Papa reúne a Cúria Romana numa semana de exercícios espirituais, em reflexão sobre a vida e o mundo, o presente e o futuro. Para orientar a reflexão no ano de 2018, o Papa escolheu pela primeira vez um português, precisamente Tolentino Mendonça. Ora, os textos que serviram de guião às reflexões conduzidas pelo poeta, teólogo e sacerdote português sob o tema Elogio da Sede, que pela sensibilidade, beleza e originalidade, causaram uma profunda impressão no Papa Francisco que os agradeceu com as seguintes palavras: “Obrigado por este apelo a nos abrirmos sem medo, sem rigidez, para sermos suaves no Espírito e não nos mumificarmos nas nossas estruturas que nos fecham”.
A par de outros livros, este notável Elogio da sede espiritual, para além de uma reflexão partilhada com os cristãos, representa um apelo e uma genuína interpelação a todos as pessoas, independentemente da crença ou da ideologia, mas, antes, centrada na sua dimensão essencial de dignidade e redenção.
Tantas vezes, parados, viciados no sedentarismo e no comodismo, vivemos em ansiedade e monotonia espiritual. Quanto muito, partilhamos, damos do que é supérfluo e nos sobra e pouco ou nada do que realmente somos: o nosso tempo, os afectos, a atenção, a palavra amiga, a companhia, as nossas raízes, a água da nossa sede. Precisamos de recomeçar, de vibrar ao apelo da viagem, a desinstalarmo-nos para novas ideias e projectos concretos, próximos, designadamente de voluntariado e de animação espiritual. Como refere Tolentino Mendonça, abrirmo-nos à aprendizagem do espanto, desaprender do tanto que é secundário para se reaprender o que é essencial na livre partilha do que verdadeiramente importa. Se ninguém se perde só, também ninguém se salva sozinho. É a apedra angular, a hora central do dia como o autor refere: “Sempre que acedemos ao convite para uma viagem interior é meio-dia. Sempre que nascemos e renascemos no encontro com a palavra é meio-dia. Sempre que nos dispomos à escuta profunda da nossa sede é meio dia. Sempre que nos abeiramos da fonte em silêncio e esperança, sem mais. No entusiasmo do riso ou no desamparo de tantas noites e lágrimas, quando nos sentimos a descer uma íngreme escada sem corrimão: pode ser meio-dia. Na tarefa que nos obsidia e absorve e na pausa que nos devolve a nós mesmos: pode ser meio-dia…”
Tolentino Mendonça, figura singular da Igreja, foi recentemente elevado a Cardeal e encarregue do sector da educação e cultura do Vaticano. Na sequência de vários livros de poesia, de ensaio e de teatro recebeu vários prêmios literários. Há poucos dias foi-lhe lhe atribuído o Prêmio Pessoa como sinal de reconhecimento da sua vida e obra. Muito podemos aprender nos seus livros e com o seu exemplo.
Desejo a todos um Bom e Santo Natal que nas palavras de Tolentino: “O Natal do comércio chega de um dia para o outro. Fácil, tilintante, confuso, pré-fabricado. É um natal visual…O Natal tem de ser fundo, pessoal, despojado, interpelador, silencioso, solidário, espiritual. Acorda em nós, Senhor, o desejo de um Natal autêntico.”