Maria de Lurdes Gouveia Barata
AS LUZES DO NATAL
Caminho ao longo da Avenida Nun’Álvares, já caiu a noite embora ainda não sejam dezanove horas (esta mania de mudar o horário para Inverno sempre me irritou!). Caminho lentamente para enrolar o olhar nos troncos das árvores embrulhados de luzes que os atam como fitas de prendas, mas os olhos demoram-se especialmente nos estiletes de luz que escorre como se fossem estiletes de gelo a pingar por descongelamento. Fico presa nestas imagens ao longo da avenida, fantasiando paisagens de neve quando assoma o sol. Entretenho-me com outras iluminações, seduzem-me as da chaminé muito alta a querer tocar as estrelas – o céu está escuro, é impossível vê-las, é natural que assim seja. Algumas luzes acendem e apagam ininterruptamente e tem-se a impressão de cintilação de estrelas como se estivessem à mão de semear por uma descida à Terra. A luz atrai e aquieta corações, porque dá uma sensação de segurança, de estarmos entre os semelhantes. E as pessoas gostam de sair para ver as iluminações de Natal, porque o ambiente torna-se feérico.
Dois dos meus vizinhos colocaram luzes coloridas nas varandas, meio dependuradas como se estivessem em montra de colares com pingentes luminosos de vaidade e eu ponho-me a querer o mesmo na minha varanda apagadinha e a fazer projecto de seguir exemplo.
Luz tem sobretudo um sentido positivo, não esquecendo a antinomia em relação à treva. Porém é na luz que se incrusta a vida e a própria linguagem guarda essa essência: abrir os olhos à luz que equivale a nascimento, dar à luz em que uma mãe traz um filho à vida na Terra; cerrar ou fechar os olhos à luz evoca a morte. Dar luz tem a ver com clarificar, por isso da discussão nasce a luz, para compreender, para apurar uma verdade. Daí que ter umas luzes sobre determinado assunto é perceber alguma coisa. E uma infinidade doutras expressões a língua guarda num relacionamento com a luz. E a luz torna-se símbolo espiritual, característica do conhecimento e divina nas religiões. Em «Ode à Claridade», de que faço excerto de seis versos, Pablo Neruda comunica o bem estar e a felicidade ligados a uma simbologia de luz:
Oh, dia pleno,
oh, fruto
do espaço,
o meu corpo é uma taça
onde a luz e o ar
caem como cascatas.
Tudo o que é elevado ou divino manifesta-se na luz, que, por sua vez, se revela no sol, no fogo, no relâmpago. Mas o fogo duma explosão de bombas imediatamente nos atira para o repúdio e para um abismo de pensamentos negros. Lembramos imediatamente os clarões destruidores das guerras Rússia-Ucrânia e Israel-Hamas. O horror que está em palco começa a fragilizar a esperança, tão necessária à nossa vida e já a procuramos como uma luz ao fundo do túnel, um túnel onde impera a treva e a morte. E o Natal de 2023 traz esta parte da escuridão do sofrimento, do desespero da guerra. O mal e o bem coexistem, mas procuramos a luz
Um poema de António Salvado ilustra a ideia:
NATAL
Que nos trazes a não ser
lágrimas cada vez mais,
natal eterno a nascer
de outros natais…
Ligeira esperança que toca
os nossos olhos molhados
e o sangue da nossa boca,
amordaçados…
Ah bruxuleante luz
acenando ao longe em vão
e que a dor nos reproduz
em ilusão…
Ternura dum breve instante
que o próprio instante desterra,
morta no facto constante
de tanta guerra…
Todavia, a Estrela de Natal, a Estrela de Belém, que é Estrela-Guia, acena aos seres humanos através da Esperança, sempre a nascer não só com o Menino Luz, também com o coração dos Homens de Boa Vontade, que não a deixarão apagar.