25 ANOS DE LIVRARIA A MAR ARTE EM CASTELO BRANCO
Aconteceu na sexta-feira, 22 de setembro. Depois de uma curta visita à Biblioteca Municipal de Castelo Branco, decidi espreitar as novidades na Livraria Bertrand, na Avenida Nuno Álvares; e foi lá que aconteceram dois dos mais extraordinários acontecimentos da semana. Uma jovem estudante procurava um livro: Fausto, de Goethe, mas, se houvesse só a primeira parte, preferia. Era só a primeira parte que ia estudar, acrescentou.
Desconhecendo eu existirem dois volumes do Fausto e estando junto à estante da Poesia onde se encontrava o livro, na edição da Relógio d’Água, não resisti e exerci de livreira.
Meti o livro na mão da jovem, aconselhando-a que levasse aquela edição; que era um investimento para toda a vida.
Ela respondeu-me, surpreendida: “É igual ao da minha professora”. Levou o livro, até porque era o único disponível; e eu sorri num silêncio profundamente feliz, recordando com saudade a minha edição cartonada com desenhos da Ilda David.
Passados uns minutos, entrou uma turma de crianças de um Jardim de Infância com a educadora a comandar as operações.
As crianças dos Jardins de Infância quando saem à rua mantêm-se em fila de dois e agarram-se pelo bibe para não se perderem do grupo; noto isso nos passeios que elas fazem na rua e também ali na livraria, onde se mantinham sérias como um grupo de escuteiros em missão importante.
Adiei o que me tinha levado à livraria e passei a observadora interessada. A educadora lá continuou a explicar o que era uma livraria e como eram diferentes os livros dos adultos.
Chegados à caixa, depois da voltinha em círculo pela livraria, a educadora lá explicou também aos adultos presentes a razão da visita: como tinha que levantar uns livros que encomendara, decidira mostrar aos seus pequenos alunos, uma Livraria.
Em boa hora. Os pequenos estavam felizes e eu feliz com eles.
Ser livreira é de todas as ocupações possíveis a minha favorita; fui muito feliz na Livraria Quarteto, em Coimbra, no início dos anos 90, onde conheci dezenas de jovens extraordinários que visitavam a livraria diariamente, e que hoje, homens feitos e formados, triunfam nas suas áreas, e de quem ainda sou amiga; como o antropólogo Rodrigo Lacerda, o economista João Rodrigues, ou o antigo estudante e grande frequentador da Livrara Quarteto, em Celas (que já não existe) Miguel Amado, hoje curador de arte; e responsável por duas exposições da Coleção Norlinda e José Lima, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco.
Resultado dessa experiência de Coimbra, nasceu em outubro de 1998, em Castelo Branco, a Livraria A Mar Arte, que a Paula Ribeiro ainda mantém contra todos os ventos e marés.
É difícil imaginar o trabalho que dá manter uma Livraria, especialmente numa cidade como Castelo Branco, onde poucos compram livros; e, muitos não têm como hábito regular visitar uma Livraria.
Penso, aliás, que é mais difícil estar à frente e manter uma Livraria em Castelo Branco que ser editora de poesia, atividade que considero a última profissão romântica em Portugal, impossível de manter em exclusividade.
Daí recordar com alegria a inauguração da Livraria A Mar Arte, no início de outubro do ano 1998 que contou com a presença de Carlos Pinto Coelho, uma espécie de “padrinho honorário” e uma das figuras televisivas mais marcantes desses anos que completaram o século vinte.
Foi a primeira vez que o jornalista Carlos Pinto Coelho visitou a cidade de Castelo Branco, e logo para a inauguração de uma Livraria.
Não sei se Carlos Pinto Coelho voltou à cidade; mas sei que ter uma Livraria aberta durante 25 anos, na cidade de Castelo Branco, especialmente nos anos vinte, do século vinte e um, é um feito só ao alcance dos que não desistem perante as múltiplas dificuldades.
Por isso, quando, em alguma situação, elogiam a minha resiliência como editora e mediadora de leitura; só tenho uma resposta: “Resiliente é a Paula Ribeiro que mantém aberta, há 25 anos, uma livraria na cidade de Castelo Branco”.