Edição nº 1720 - 15 de dezembro de 2021

Lopes Marcelo
O TEMPO NA CULTURA POPULAR RURAL

Por vezes tem-se debruçado esta janela de comunicação, assumida crónica do tempo que passa, sobre a efêmera circunstância da espuma dos dias. Outras vezes, desliga-se do imediato e tangível que se vive na pressa de chegar, de consumir e de ter, para abordar temas mais perenes e propor reflexões. Hoje, ao enquadrar a noção de tempo na cultura popular rural, é no campo da reflexão que nos situamos.
O tempo é sempre um grande escultor. Seja o tempo exterior, curto e acelerado dos relógios, das horas na voragem dos dias que nos moldam por fora; seja a noção mais introspectiva do tempo natural, nos seus múltiplos ciclos e ritmos específicos das di-mensões vegetal e animal, riquíssimo mosaico dinâmico de tonalidades sazonais que se oferece à pauta dos afectos e da sensibilidade humana. Importa é dar tempo ao tempo, tempo do vagar para olhar, questionar, crescer, saborear e procurar entender, moldando-nos por dentro. Tempo de relação, do amadurecimento de diálogos, de aprendizagens e descobertas não só materiais, mas, até e sobretudo, simbólicas e espirituais. Tempo colectivo, social e histórico, como matriz que enquadra o rio singular do tempo individual que se filia na dimensão comunitária e familiar. Tempo da memória, depositário de saberes, valores e tradições que expressam os genuínos alfabetos funcionais, ou seja, os modos de sentir, de saber-fazer, de ser e de estar.
Das múltiplas formas e linguagens em que se marca o tempo, destacamos hoje os sinos.
De facto, nas sociedades rurais, o sino é expressão de diferentes modos de organização e de representação do tempo cronológico. Tem ligação com o tempo solar, regulando o dia a dia das povoações rurais, pois que os sinos anunciam o início, as pausas e o fim dos trabalhos nos campos, comunicam eventos comunitários, para além de e, sobretudo, convocarem para a oração. O uso dos sinos no culto cristão inscreve-se na continuidade da utilização de instrumentos musicais, como os cornos de carneiro, os búzios e as trompetas de prata que são citadas no Antigo Testamento para anúncios de festins, ou as campainhas de ouro que são mencionadas no livro do Êxodo.
No âmbito da sua função social, os sinos desempenham um papel importante como voz da comunidade. Com o Santo padroeiro e a sua festa anual, a par de algum monumento ou facto histórico, o sino é elemento relevante da identidade cultural do povo. No plano da memória colectiva, o sino é símbolo de especial evocação enquanto sinalizador de momentos marcantes da comunidade, agregando todo um território na sua presença acústica de forte vibração emocional nos bons e maus momentos. Nas festividades e nas tragédias. Convocando ao combate a um incêndio, numa batida aos lobos, aos javalis ou noutras ameaças à comunidade.
Do ponto de vista simbólico, a gramática das suas melodias, o número de toques dos sinos e a sua intensidade e ritmo, constituem sinaléticas de informação que se aprendiam logo na infância pois se transmitiam geração em geração (toque das Ave-Marias, de missa, de procissões, batizados, casamentos, funerais, catástrofes com destaque para o repique a rebate no caso de incêndio ou de levantamento popular).
De facto, os seus toques continuam a ecoar vibrantes na memória afectiva dos filhos da terra mesmo que ausentes por longo tempo da sua terra natal.
Nos dias de hoje ainda é muito importante a função dos sineiros nas nossas comunidades rurais e será de grande importância que os seus saberes sejam preservados, se ensinados e praticados. Contudo, em casos limites, já é possível a reprodução automática dos toques devidamente programada.

15/12/2021
 

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