Edição nº 1720 - 15 de dezembro de 2021

Maria de Lurdes Gouveia Barata
DIVAGAÇÕES DO NATAL 2021

No silêncio desta noite do princípio de Dezembro, com frio e céu azul e sol durante o dia, comove-me este Silent Night numa voz maviosa, trazendo-me noutra língua uma tranquila anunciação do Natal, que senti pela primeira vez este ano, apesar da preparação das luzes de rua que estou desejosa de ver ligadas. Este Natal era a esperança do à vontade dos natais de antes de 2020 e à vontade não há nenhum com o ómicron a espreitar-nos os passos e os gestos. Coloca-se melhor a máscara (como está também, mas não estou a conhecer…Ah! Como vai, já vi, quando agora a baixou um bocadinho, desculpe, tenho esta dificuldade de reconhecimento dum mascarado…) e prepara-se interrogativamente a noite de Consoada, que o ano passado nem a família mais próxima juntou. Fico especada na noite depois de ouvir o Silent Night e penso nos silêncios que não são a ternura do nascimento do Menino.
É quase obrigatório falar do Natal na época de Natal. Repetem-se as luzes, as árvores natalícias, os presépios e há concursos de presépios. As lojas estão atulhadas de prendas nas montras e atulhadas de cabeças lá dentro. Há vermelhos de fogo e brancos de neve falsa, há lentejoulas, donde sai luz, nas camisolas enfiadas com as calças rotas da moda, donde sai amostra de carne da perna. Escolhem-se músicas alegres de festa de Natal na rua, escolhem-se as mais suaves, como quando ouvi o Silent night, holy night – a noite silenciosa, a noite sagrada (não é que me soa melhor em inglês!, pois uma professora de inglês obrigou-nos a decorá-la no liceu – deve ter-me impregnado e entranhou-se também uma saudade), essa silent night, como dizia, encontra-se paredes dentro, em frente da lareira, com línguas de fogo de lamber (e não tenho lareira!). Há as prateleiras de brinquedos, as bonecas são princesas, os carrinhos atraem velozmente o olhar, há as pistolas e as metralhadoras que os talibãs usam no Afeganistão, há sabres de pôr à cintura e as facas dos últimos ataques terroristas. Há presépios animados com paz de fontes e regatos e Bairros Altos com multidões sem máscara. Ah, é verdade que agora o vírus é mais intrometido, apareceu com vestimenta diferente, dizem, nós não vemos, e com o nome de ómicron. Assim, sempre mete mais respeito, com velocidades de conquista como nos filmes de cowboys, em que o cowboy é bom na rapidez de puxar a arma. Há as imagens dos pavilhões de vacinação em vez dos grupos corais a entoar canções de Natal.
Luz da estrela de Natal, como a que guiou os Reis Magos, luz de Natal no fogo dos madeiros, a lembrar as antigas festas pagãs da antiguidade, a lembrar os romanos que celebravam a chegada do Inverno, fazendo cultos ao Deus Sol, para que houvesse renovação, para que não se apagasse o sol, apagando a vida. Depois o cristianismo deu toda essa luz ao Menino, atribuindo-lhe nascimento na altura dos cultos ao Sol. E o Menino foi sempre Sol na emanação da luz do sonho para as crianças, que tinham nos olhos as cintilações das estrelas, imaginando esse Menino que descia pelas chaminés e lhes dava prendas – e já era contentamento para alguns uma laranja no sapatinho. Agora também temos o Natal com o fogo do Cumbre Vieja das Canárias, escorrendo luz de lava e a oferenda traz destruição. E há mais fogo: aquele vulcão de Java, que apanhou todos distraídos – foi coisa do Diabo.
Já não há aqueles caminhos dos pastores que levavam à choupana onde estava o Rei dos Reis. O campo livre com frescura de musgos (está no presépio!) foi substituído pelo arame farpado que se erige em muros, onde os refugiados se agarram e sangram. E temos um continuum de eventos de migrantes e uma catástrofe de fugas por este planeta fora, o tal pontinho no espaço, mas é o que nos interessa. É só interesses, somos uns interesseiros e qualquer outro salve-se se puder.
O Papa Francisco está hoje, 5 de Dezembro, na Grécia e fala da situação no Mar Mediterrâneo, aqui tão perto (lá estão os interesses…) e arrepia um pouco com expressões que até estragam o clima de Natal (para alguns, de orelhas moucas, não estraga nada) e sai-se com aquelas expressões (que as pessoas mais sensíveis nem devem ouvir nem ver – como recomendam para certas imagens de televisão no telejornal) como dizer que o Mediterrâneo está a transformar-se num «cemitério frio sem lápides» e fala num «mar de morte» (que coisa, incomodar assim na época de Natal!) e fala até (talvez seja exagero…) num «naufrágio da civilização» e numa «crise humanitária que nos afecta a todos» e diz que «ninguém parece importar-se com essas vidas humanas» e depois o outro, o padre ortodoxo, chamou-lhe herege em Atenas. Seria por Francisco insinuar sobre a indiferença e a intolerância dos seres humanos perante outros seres humanos, seus semelhantes? Não percebi bem…
Falava de Natal, há-de haver uma breve trégua nos egoísmos, decerto, precisa- -se neste palco, depois do Natal já se pode voltar ao mesmo, mas agora «é dia de ser bom», como diz o poema de António Gedeão.
O Pai Natal, com aquela viagem que tem de fazer lá da Lapónia, corre riscos com tanta travessia. Ele bem se deve benzer a pedir ajuda ao Menino para a viagem, não vá apanhar fenómenos extremos ou tempestades de chuva e granizo por causa das alterações climáticas. Os homens deram-lhe cabo do caminho, que dantes era bem mais seguro. Mas as cartas dos meninos são tantas e algumas tão aflitivas… Ainda por cima existe o tal inimigo invisível (do que o Diabo se havia de lembrar!) que o pode apanhar. Será que traz a máscara? Hum… penso que deve pelo menos estar vacinado, que ele não é nenhum parvo… Boa viagem, Pai Natal!

15/12/2021
 

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