João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
FOI NO PASSADO DOMINGO comemorado o Dia Mundial da Televisão, efeméride instituída pelas Nações Unidas em 1996 para, como é referido na página da Organização, reconhecer o crescente impacto da televisão em processos de decisão e na divulgação de conflitos, ameaças à paz e à segurança, além do seu papel formador de opinião. É então claro que se reconhece importância na sociedade democrática daquela que ficou conhecida como a caixa mágica, que quando apareceu parecia prometer vir a destronar ou mesmo a fazer desaparecer a rádio difusão, o media que antes da televisão era a principal fonte de informação e entretenimento. Tal não aconteceu de todo, ainda que ela passasse a estar no centro da vida das pessoas, com uma força de tal forma tremenda que garantiu, por exemplo, o cargo de presidente dos EUA a Kennedy depois do famoso frente a frente com Nixon, claramente com pior imagem e menos à vontade no domínio da linguagem televisiva. Um media que criou e destruiu mitos e heróis, de tal forma importante e influente que qualquer regime ditatorial não o dispensa, dentro de um controle apertado, como se viu em Portugal no tempo do Estado Novo, servindo como caixa de ressonância dos regimes não democráticos. Longo caminho percorreu a televisão em Portugal, com o aparecimento em 1992 de duas estações privadas que prometiam alterar o cinzentismo da televisão estatal. Passados estes anos todos, vemos duas televisões a disputar o mercado publicitário, a levar a maior fatia o que conseguisse melhores audiências que se conseguem com programas de gosto popular como telenovelas e reality shows quase sempre socialmente degradantes. Como é grande a procura de informação pelo consumidor, num país de poucas leituras e baixo consumo de bens de cultura, troca-se o jornal pelo telejornal sempre no topo de audiências. E assim, Portugal talvez seja um caso único na Europa, com os principais serviços de notícias das duas televisões privadas e generalistas, a estenderem-se por quase duas horas. Nesta luta feroz por audiências de gosto fácil, leio textos críticos a considerarem miseráveis as audiências da RTP. Crítica injusta e pouco inteligente porque a televisão pública não pode concorrer com as mesmas armas. Felizmente é uma verdadeira televisão alternativa com programação diária variada e uma informação suficientemente equilibrada. E numa época em que a televisão tem evoluído do cabo, com centenas de canais, para os serviços de streaming onde cada utilizador pode construir o seu próprio plano de visionamento, a RTP disponibiliza também uma plataforma de streaming gratuita e acessível em todos os suportes digitais e em smart TV. Onde encontra filmes, séries, documentários e programas que já há algum tempo ou ainda recentemente passaram nos canais públicos. Onde pode encontrar preciosidades como O Último a Sair, de Bruno Nogueira e João Quadros, uma paródia aos reality shows e talvez uma dos melhores programas de humor que, para além dos clássicos do Herman, já nos foi dado ver em produção nacional. Ou um excelente RTP Arquivos, disponível em suporte digital através da sua aplicação, que guarda preciosidades que aqui não dá para enumerar. Tudo aquilo que não teríamos se os liberais que por aí andam conseguissem o seu desiderato de privatizar tudo e mais a RTP.