João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTE ANO O NOBEL DA PAZ foi atribuído a dois jornalistas. Maria Ressa, das Filipinas e o russo Dmitri Muratov foram distinguidos pelos seus esforços de salvaguarda da liberdade de expressão e pelo direito de terem leitores informados, sem notícias falsas, que o Comité Nobel considera ser uma “condição para a democracia e a paz duradoura”. Mesmo que para isso tenham enfrentado riscos e, porque lutaram pela liberdade de expressão e de crítica nos seus países, enfrentaram a prisão e viram colegas de trabalho serem mortos, confirmando assim que em alguns países a profissão de jornalista é bastante perigosa. Nas palavras do Comité, eles representam “todos os jornalistas que defendem este ideal num mundo onde a democracia e a liberdade de imprensa enfrentam cada vez mais condições adversas”. Na mais recente prova de vida do antigo presidente Cavaco Silva, que continua igual a si mesmo, num documento publicado no Expresso, traça um panorama negro da economia portuguesa, todas as maleitas do atraso económica do país sendo culpa dos governos socialistas, desde Guterres. Uma opinião que se pode discutir mas que é respeitável. O mesmo não direi quando ele afirma mais uma vez, que em Portugal se vive um sufoco democrático e onde os jornalistas têm receio de criticar o governo. Não sabemos em que país julga viver Cavaco Silva. Porque basta uma espreitadela nos escaparates e contar os jornais, incluindo os digitais, que assumidamente e de forma largamente maioritária defendem valores de direita, ou contar todos os comentadores das várias televisões que em total liberdade criticam o governo sempre que assim o entendam. A não ser assim, estranha-se que não se conheça o nome de qualquer jornalista que tivesse sido despedido ou perseguido por criticar o governo socialista. Ou terá Cavaco em tão fraca consideração os jornalistas do seu país que pense que todos eles vergam a coluna ao poder? É a liberdade de imprensa, com constrangimentos económicos que não dá para analisar agora, como não encontramos em muitos outros países do Mundo. Por isso, este Nobel da Paz é uma bela e merecida homenagem ao jornalismo que luta pela verdade contra a corrupção, um jornalismo de investigação que assusta muitos poderosos, pelo desmascarar de práticas de fugas ao fisco, corrupção e branqueamento de capitais através dos paraísos fiscais como as que estão expostas em vários milhões de documentos incluídos nos chamados Panama Papers de 2016 e nos mais recentes Pandora Papers, da responsabilidade do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ).