Edição nº 1671 - 30 de dezembro de 2020

José Dias Pires
O LUGAR DE LER E O COMBOIO DAS LETRAS DOCES

Chuva fingida. A água chegava ainda mais leve que um sopro de nuvem diluída. Em vez de inibir, incitava os habituais utilizadores do passeio do rio. Sabia-lhes bem sentir no rosto o que quase não viam. Eram as gotículas doces de uma manhã amiga. Por uma inusitada vez, observavam, porque sentiam, o que não conseguiam ver.
Ao leitor apeteceu-lhe poesia. Tirou a folha e a caneta do caderno e desenhou um poema: aproveitou as gotas que vagarosamente se escapam da árvore que o defendia da chuva ténue e deixou-as cair sobre a folha de papel onde tinha desenhado estrelas de cinco traços das quais partiam várias reticências agigantadas, quase manchas. Depois meneou o papel para que as gotas escrevessem um texto de chuva.
Como sempre, leu-o em silêncio entes de libertar as palavras.
«Eu não tenho medo, nem vergonha de falar alto! As letras doces diluem-se no ar com o sopro molhado e transparente. Percorrem-nos a pele como pequenos ribeiros à descoberta da terra e entram-nos nos poros como uma carícia da pessoa amada. Ficamos em paz. Até os que passam preocupados com o caminho em frente se sentem adoçados e sorriem a desejar olhar para trás. Os olhos indicam-lhes a rota, e os pés, incapazes de pensar, tentam não tropeçar numa palavra levantada no chão e escrita pelos carateres adocicados. Ouçam o que ficou por ver e não se amedrontem: o comboio que carrega às costas as letras doces resguarda-se da chuva. Atempadamente preparou um sistema subterrâneo e tubular onde armazena, de forma organizada, todas os grãos de açúcar que se desprendem das palavras ditas, dos pensamentos soprados e dos esquecimentos intencionais, para os oferecer, no tempo das agúdias, a todos os que gostam de ler. Corram, pisem as folhas ressequidas que as árvores depositam para vos atapetar os pés, mas não matem as agúdias. Elas, como as letras das palavras perdidas, morrem por amor. As letras porque não chegam a ser texto, as agúdias, porque cumprido o seu trabalho de fecundarem a mãe de um novo mundo, descansam de tanto amar.»
Preparava-se para dobrar a folha onde a chuva desenhou o texto, quando foi interrompido por uma voz agradável e redonda:
«Posso sentar-me?»
«Esteja à vontade, saio daqui a pouco.»
«Agradecia que ficasse. Gostava de poder conversar consigo.»
«A propósito da minha loucura?»
«Não, a propósito da sua lucidez.»
«É estranho.»
«Não estranhe, sou a avó do seu ouvinte de dois palmos e meio que fundou o Clube dos Ouvintes do 6º C, deve estar a par.»
«Sim, temos uma boa relação. Na verdade foi ele o meu primeiro ouvinte.»
«E eu a sua enviada.»
«Por alguma razão especial?»
«Sim, por causa de um pesadelo.»
«Um pesadelo?»
«Das palavras difíceis. O meu neto esta noite teve um pesadelo. E acordou a cantar.»
«A cantar?»
«Também estranhei. Como tenho o sono leve, fui a primeira a chegar ao quarto dele.
Estava sentado na cama e apontava para a janela. “Sabes, avó, eu hoje tive um pesadelo: eu era uma letra e ganhei asas. Estava num túnel muito escuro. Tentei voar, mas batia nas paredes e tive medo de partir as asas. Por isso comecei a andar, e entrei num fila interminável de letras com asas.” “Isso era um formigueiro”, disse eu. “Era o formigueiro das letras das palavras difíceis.” “E que palavras são essas?” “São palavras começadas por A, como amanhecer, acariciar e amar.” “Mas essas são palavras bonitas.” “Por isso é que são difíceis, avó.” “Quem disse?” “O leitor que se senta num dos bancos no passeio do rio.” “Dizem que é louco.” “Porque não o ouvem, avó. Se o ouvissem… E depois eu voava.” “Tu voavas?” “Sim, no pesadelo. Voava entre as nuvens até chegar mesmo por cima do lugar onde o leitor estava sentado com o seu caderno negro de capa dura. E depois caí. Caí para dentro do caderno com páginas em branco e ele transformou-se num livro.” “Mas isso não é um pesadelo, é um sonho!” “Não, avó, é um pesadelo porque eu acordei sem saber se caí no sítio certo!” “Mas acordaste a cantar!” “Pois foi, estava com medo de me ter enganado e caído no sítio errado.” “Sítio errado?» «Sim, das palavras fáceis, aquelas que começam por O. O meu pai explica-te. São palavras muito feias! Ora agora imagina que eu caí na página dessas palavras!” “E que queres que eu faça?” “Que vás saber se voei e caí no sítio certo.” “Mas estás aqui!” “Pois estou. Mas voei transformado numa letra com asas, enquanto dormia. Vais lá avó? Basta ouvi-lo e percebes logo se eu voei bem.” E vim. Cheguei a tempo de o ouvir.»
«E que lhe parece do que ouviu?»
A senhora sorriu e disse de forma agradável e redonda:
«O meu neto tem razão: é preciso ouvi-lo.»
«Sabe, eu hoje encontrei-me estranhamente sozinho neste lugar. As pessoas passavam e desapareciam como se fossem diluídas pela água quase invisível que as acompanhava. Antes de olhar para a lonjura, como faço sempre, fechei os olhos. No escuro, vi o infinito. Um infinito sem presente, passado ou futuro. Sem esperar, senti um abraço forte, abri os olhos e tirei a folha do caderno para nela desenhar o que me apetecia escrever. Numa das minhas manchas caiu uma pinga pendurada numa das folhas da árvore que me protegia. Olhei-a: escorregava para a margem da folha transformada num A. Era a letra voadora que acordou o sono do seu neto. Pode dizer-lhe que voou bem e caiu melhor.»
«E transformou-se num livro, suponho.»
«Não. Mas passou a fazer parte do comboio das granuladas letras de açúcar das quais se alimenta o formigueiro que rodeia este lugar.»
«Posso levar-lhe o desenho que fez, para o tranquilizar?»
«Pode. Mas não vai ser fácil ler-lho.»
«Acredito. Espero que seja ele a lê-lo para mim.»
Partiram os dois. Reconfortada com a oferta que levava para o neto, a avó saltitava ligeira a caminho de casa.
(Texto emprestado pela minha novela Vento do Fim, que, quando for o seu tempo, será publicada)

30/12/2020
 

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