João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
ESTA SEMANA HOUVE DOIS CASOS MEDIÁTICOS que não beneficiaram em nada a imagem do governo. Referimo-nos, à TAP e às públicas divergências no interior do executivo sobre a responsabilidade na aprovação do Plano de Reestruturação que vai trazer certamente sangue suor e lágrimas. O ministro da tutela, Pedro Nuno Santos, queria levar o Plano ao parlamento, com os partidos a serem também eles responsabilizados pelo futuro da TAP, que em ultima instância poderia chegar mesmo ao encerramento da empresa. O primeiro ministro entende que seria abrir um precedente e que a aprovação do Plano é, simplesmente, da competência do governo. A divergência entende-se, faz parte de uma gestão política democrática, diria mesmo que este é um caso em que os dois têm razão, mas o que se estranha é trazer a público de uma forma pouco diplomática esta divergência, com António Costa a desautorizar um dos seus principais ministros. Não é assim que se fortalece o governo, numa altura tão crítica, por tudo e também porque estamos em vésperas de assumir a presidência do Conselho da União Europeia. No outro caso o que esteve em causa foi também a imagem de Portugal como um país europeu que deverá ter sempre como fundamental a defesa dos direitos humanos. Falamos da morte de um cidadão ucraniano às mãos de três agentes do SEF nas suas instalações do aeroporto de Lisboa, em circunstâncias que só agora vão sendo conhecidas e que pela violência com que foi praticado o crime, parecendo os agentes seguros da impunidade por atos que deixou em agonia até à morte um pacato cidadão europeu. Um ato que nos deixa a todos enojados, deveria corar de vergonha o estado, as entidades que o representam, que esquecerem durante estes nove meses que a vítima tinha família a quem teriam de dar uma palavra de conforto e ajuda. Demorou nove meses até ter consequências e foi precisa uma entrevista que a viúva deu a um canal de televisão para oficialmente fazer despertar o caso, demitir a responsável pelo SEF, garantir indemnização à família, que até teve de pagar do seu bolso, imagina-se com que dificuldade, a trasladação do corpo. Enquanto as autoridades dormitavam sobre o assunto, apenas dois jornais, o DN e o Público, iam com regularidade mantendo o crime à tona da espuma dos dias do Covid. Um caso onde o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, deveria ter sido bem mais célere. Um tão simples assumir de responsabilidades, investigação rápida e tomadas de decisões que pareciam tão evidentes evitaria hoje aquilo que já se adivinha. Uma fragilização do ministro, também do governo e consequente remodelação numa altura que talvez não seja do agrado de António Costa.