José Dias Pires
A ORAÇÃO DA PERTENÇA
Felizes os que nasceram livres e morrerão livres e puderam abraçar o desafio de seguirem as suas próprias convicções, os seus ideais, as suas crenças, os seus valores, através da coerência e da integridade.
Felizes aqueles cujo desenvolvimento pessoal vive na liberdade de escolha e de expressão que dependem, de forma significativa, das dinâmicas enraizados na cultura familiar, comunitária e social.
Felizes os que sabem que o sentimento de posse é o oposto ao sentimento de pertença e interiorizaram que ser livre é não aceitar a dominação e o controlo pela obsessão de outros.
Felizes aqueles que entendem o sentimento de pertença como reforço dos relacionamentos saudáveis, dos afetos, da liberdade suportada pela honestidade total e pela coesão comunitária onde se garanta a legitimidade à individualidade, ao desenvolvimento e ao crescimento pessoal.
Felizes os que respeitam os limites e os compromissos devidos à dignidade humana e vivem abertos à mudança, à lealdade, ao compromisso e aos desafios diários que permitam identificar que todos pertencemos a um mesmo projeto global mesmo quando, e felizmente, não existe unicidade quanto à sua concretização, nem confronto acrítico de princípios e objetivos.
Felizes aqueles que admitem, e praticam, que pertencer não é apenas ser parte — é fazer parte ativa e atuante, na sua aldeia, na sua cidade, no seu país e no mundo, e exigir, em simultâneo, ser responsável, agente e beneficiário do que aí acontece.
Felizes os que não se envergonham de dizer que amam a sua aldeia, a sua cidade, o seu país sem se limitarem ao louvor sem substância ou à crítica sem fundamento; que não dizem bem por conveniência ou não dizem mal por interesses mesquinhos, obscuros e pessoais.
Felizes aqueles que não se escondem nas máscaras anónimas da denúncia e que ao apontarem os erros de outros, cumprem o dever de exigir a sua correção, tendo antes observado e assumido as suas próprias falhas e limitações, de cara descoberta, para poder exigir o direito de ser e propor alternativas — e propô-las.
Felizes os que não temem o desafio comprometido que pertencer é saber oferecer-se para liderar ações efetivas de inovação, ajuste ou correção em favor da comunidade da qual fazem parte, sem se subjugarem ao favor pessoal e ao mesquinho interesse de grupo, problema maior de quem apenas quer ser parte e teme a responsabilidade de fazer parte.
Felizes aqueles que não são acríticos, nem acéfalos e não se regozijam com as palavras vindas de longe de quem não é nem faz parte da comunidade que persegue, diminui ou denigre, porque conhecem e utilizam os locais próprios onde exercer a cidadania a que têm legitimamente direito.
A todos chegará a participação comunitária e o reconhecimento mobilizado e envolvido dos cidadãos nos processos de decisão que favoreçam a comunidade.
A todos será oferecido apoio e colaboração, se forem contributo e não entropia para a existência de um elevado sentimento de comunidade em que as pessoas se mobilizam e participam nas soluções dos seus próprios problemas, e se tiverem a vontade de perceber como o sentimento de pertença é importante para a promoção da identificação e da autoconfiança comunitária facilitadoras das relações sociais debatidas e promotoras do contraditório.
Felizes, pois, os que mobilizados e envolvidos em torno dos problemas comunitários na sua aldeia, na sua cidade, no seu país, sem viseiras ideológicas, sem peias partidárias ou compromissos baseados em interesses ou motivações exclusivamente pessoais, contribuem para o incremento do sentimento de comunidade e a promoção da identidade dos lugares.
Esses serão os filhos da terra, mesmo que nela não tenham nascido, capazes de partilhar ligações emocionais e que merecem fazer parte, influenciar, integrar e satisfazer as necessidades comunitárias.
Os outros são meros “estrangeiros” — corpos estranhos que se insinuam nas comunidades apenas com um fim: servir-se delas. Adeus e boa viagem.