João Carlos Antunes
Apontamentos da Semana...
FAZ ESTA SEMANA DOIS ANOS, era um 17 de junho muito quente. Lembro-me que era sábado e aqui em Castelo Branco os Sabores de Perdição estavam no auge. Uma multidão assistia ao concerto de Rui Veloso e no ecrã de televisão de uma das esplanadas das Docas lia-se em rodapé o incêndio de Pedrógão Grande. Lamentava-se então a morte de duas ou três pessoas, uma dor que em todo o caso não ultrapassava aquela que infelizmente todos os anos o país do sul de Espanha como o nosso já se ia habituando, quase uma rotina. O drama medonho e arrepiante só o conhecemos quando acordámos no domingo com uma lista de mortos que não parava de crescer. E com o horror inimaginável da morte de pais e filhos, encurralados pelo fogo naquela que viria desde aí a ser conhecida como a estrada da morte, pessoas que tinham ido passar um fim de semana em ambiente calmo e espaços quase paradisíacos, que se viriam num ápice a transformar em inferno. Dois anos se passaram e muita coisa ficou entretanto por fazer, muitas promessas por realizar. Pelo meio vieram os escândalos das indemnizações fraudulentas que deixou com o seu amor próprio ferido uma população envelhecida, pobre mas nobre e honesta. Toda uma série de situações que criou divisões dentro da comunidade local, a revolta e perda de confiança por parte de um povo solidário que logo se havia unido para contribuir com o que quer que fosse para minimizar a dor dos atingidos pela tragédia. É neste contexto de sarar feridas e lembrar para não esquecer, que surge a decisão do governo de comprar as ações do SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Segurança de Portugal) que pertenciam à Altice e à Motorola, uma operação com custos de cerca de 7 milhões, operação contestada pelo PCP que defendia a nacionalização da empresa e com o PSD e o CDS a exigirem esclarecimentos ao governo sobre a operação. Afinal, aquilo que se julgaria ser consensual, o controle a cem por cento por parte do Estado de um sistema de informação essencial para a segurança dos portugueses, acaba a dividir as bancadas parlamentares. Quem não teve dúvidas foi o Presidente da República que, hoje mesmo, promulgou o decreto. Que traz responsabilidades acrescidas para o Estado no bom funcionamento de um sistema que deverá minimizar ao máximo as consequências de desastres naturais como aquele que, convém sempre sublinhar, foi o resultado de um conjunto de fatores, para além do desleixo e abandono das terras, houve um fenómeno atmosférico que fez com que o fogo alastrasse a uma velocidade estonteante quais bolas de fogo. Fenómeno potenciado pelas alterações atmosféricas que só cientistas descredibilizados como os que aconselham Trump não reconhecem. E que foi capa do último número da Time, uma capa excecional, de coleção, com Guterres, Secretário Geral da ONU, a posar com ar grave, com a água pelos joelhos, como forma de alerta para as gravíssimas consequências do degelo que se tornou quase irreversível.