28 de dezembro de 2016

Carlos Semedo
CUMES

Há um ano atrás fazia, aqui neste mesmo espaço, uma revisão da matéria sobre o cinema que me tinha impressionado ao longo de 2015. Hoje vou ser mais abrangente sobre 2016, contudo vou começar exactamente pelos filmes. Um dos destaques deste ano foi a possibilidade de ver as sete grandes metragens de A. Tarkovsky na sala escura, um momento particularmente tocante, em termos pessoais, pois o cineasta russo é um dos grandes poetas do Cinema. Nostalgia da Luz e Botão de Nácar, de Patricio Guzmán, são dois murros em cheio nos nossos pontos mais sensíveis. A forma serena mas comprometida como Guzmán toca em assuntos tão sensíveis torna-o em um dos cineastas mais interessantes da actualidade e a sua visão cósmica coloca-nos permanentemente em perspectiva relativamente à natureza e ao poder e fragilidade do homem.
O Teatro Meridional apresentou em Castelo Branco, António e Maria e Al Pantalone, duas belíssimas encenações com interpretações magníficas. António e Maria é um trabalho de aproximação a António Lobo Antunes, através do universo feminino. Rui Cardoso Martins fez um trabalho espantoso de ligação de textos do escritor português e Maria Rueff dá corpo a diversas personagens num monólogo polifónico, onde revela as suas extraordinárias qualidades como atriz. A encenação é de Miguel Seabra, co-director da companhia. Foi um dos momentos do ano que mais me tocou, em termos teatrais.
Coniunctio, de Pedro Ramos, com o próprio e Sandra Rosado foi um momento alto, na dança. “Coniunctio é o nome dado à operação Alquimica que permite juntar dois elementos distintos com a finalidade de obter um terceiro, que em unidade reúna os seus opostos. A electricidade pulsante que advém da junção mediada dos opostos é aqui explorada no encontro de dois corpos, servindo-se assim de contexto para a exploração dos vários aspectos intrínsecos ao tema da relação entre duas pessoas. Aprofundar, dentro da linguagem que tem vindo a ser desenvolvida pelo criador, o tema da sintonia, traduzido na comunicação entre os corpos dos intérpretes.” Esta é uma peça que nos vai conquistando, devagar, dando sentido ao tempo necessário para que a alquímia nos transforme, também a nós, espectador. Quando chegamos ao fim, somos mesmo outra coisa. Logo no início do ano, Castelo Branco teve a rara oportunidade do espanto absoluto. Foi assim com estes dois extraordinários bailarinos.
O Que Fazer Daqui Para Trás, de João Fiadeiro, é uma proposta radical. O espectador é confrontado com as histórias dos perfomers, com os seus corpos afectados pelo esforço da corrida fora do teatro e lentamente vai estabelecendo, na sua lassidão de espera, relações com cada um. No início, a espera quase que causa ansiedade pelo inédito do não acontecimento, do microfone, tripé e da iluminação despojada – um palco assim é já um acontecimento. Depois, o ritmo de chegada dos performers vai-se intensificando e o espectador vai sendo entretecido. No final, estamos ofegantes interiormente e estamos próximos, impressionantemente próximos. Um privilégio ter podido assistir a esta peça no Cine-Teatro Avenida.
A Paixão S. S. João, de J. S. Bach é uma das obras mais importantes da música europeia e a sua exigência é partilhada pelos intérpretes e público. Na Páscoa, a Sé Catedral de Castelo Branco pode assistir a um momento histórico. Ketil Haugsand dirigiu solistas, orquestra e coro naquela que foi uma experiência inesquecível. No final, os aplausos eram vibrantes e o milagre tinha sido possível. Uma cidade do interior de Portugal ouviu uma versão da Paixão, com instrumentos da época, na sua versão integral.
Duas exposições merecem um destaque particular. Uma delas foi focada na minha anterior crónica. Narrativas de Uma Obra de Emoções, de Alexandre Frade Correia, nos antigos CTT, é um espaço de descoberta de uma obra quase desconhecida, que convida ao deslumbramento, já o escrevi. Estudos de Luz: indícios, reflexos e sombras, que se encontra patente no Centro de Cultura Contemporânea é, talvez, a melhor exposição que já passou pelo espaço. Obras de Ignasi Aballí, Fernando Calhau, Lourdes Castro, Rui Chafes, Noronha da Costa, Ana Hatherly, Marine Hugonnier, Ana Jotta, Jorge Martins, Charlotte Moth, Bruce Nauman, Maria Nordman, Paulo Nozolino, Julião Sarmento, Silvestre Pestana e Grazia Toderi, podem ser vistas com o fio condutor enunciado no título. Por outro lado, é uma das mais difíceis de apreciar e a precisar de descodificação. Ambas a exposições ainda se encontram patentes.
Esta visão altamente redutora do ano, deixa de fora tantas e tão excepcionais propostas que passaram por Castelo Branco, mas corresponde a uma leitura pessoal de alguns cumes que não quis deixar de partilhar convosco. Um excelente 2017 para todos.

28/12/2016
 

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