19 de outubro de 2016

Lopes Marcelo
A criação do museu

Francisco Tavares Proença Júnior, depois de abandonar as aulas do curso de Direito em Coimbra, como se referiu no Mosaico Cultural do mês passado, instalando-se na quinta da Cortiça perto de Leiria, propriedade da família, rodeou-se de artefactos arqueológicos e dedicou-se a organizar e a classificar a sua coleção. De facto, numa carta a seu pai tinha desabafado: “ A  archeologia é o meu vício, o único e verdadeiro que eu tenho. Faz-me por de parte concursos de tiro e muitas outras coisas que me divertiriam mais, talvez, mas que me não serviriam tão proveitosamente como este ramo de estudo a que me dediquei há já cinco anos. Nos dois primeiros anos o entusiasmo durava apenas os quinze dias de férias. Agora que já decorei o alfabeto, sinto-me mais aferrado que nunca... Estou a reunir recolhas, a colecionar artefactos e a estudá-los que dentro de seis a oito anos conto publicar, contendo como resultado do meu trabalho de estudo de antiguidades dessa região...”
Em 1906, já internacionalmente reconhecido e agraciado pela participação nos Congressos de Pré - História realizados em França, Francisco Tavares Proença júnior no Congresso realizado no Mónaco prestou homenagem ao eminente arqueólogo francês Louis Piette recentemente falecido e com quem se correspondera. O exemplo deste seu mestre, doando a sua enorme coleção de espécies ao Museu de Antiguidades Nacionais de Saint- Germain, reforçou o seu desejo de um dia colocar a sua própria coleção ao serviço da cidade de Castelo Branco e de toda a região. Por que não criar-se um museu? Como em 1907 referiu a seu pai: “Ainda um dia Castello Branco há-de ter um Museu Municipal e ainda talvez um dia ali se reúnam os sabichões n´uma espécie de Congresso Nacional de Archeologia. Já estive mais longe disso”.
A concretização deste seu sonho, constituiu o Projecto mais importante da sua vida. Para tal, empenhou-se totalmente em aumentar a sua coleção de materiais, tendo em vista a condigna instalação do museu. No início do ano de 1908 dirigiu uma exposição ao Presidente da Câmara, Dr. Manuel Pires Bento, que se transcreve: “ As Camaras comprehendem perfeitamente uma das mais altas missões dos corpos sociaes dirigentes, qual é contribuirem por meio do esclarecimento da história para o derramamento da instrução e para que assente em bases sólidas o amor da terra pátria. Quanto mais intenso for o conhecimento da história mais firme será o sentimento da nacionalidade. O homem, para ter plena consciência de si precisa conhecer o seu passado.
A archeologia é auxílio indispensável da história, ministrando meios de comprovação directa de muitos factos...Possuidor de uma colleção archeológica - a única existente na província da Beira Baixa – composta já hoje por perto de três mil objectos provenientes principalmente do districto de Castello Branco, lembrei-me de que ela perfeitamente poderia servir de nucleo para a formação d´um museu publico, onde todos podessem examinar esses vestigios de civilizações quasi esquecidas – dos tempos em que a nossa Beira Baixa começou a ser habitada...Convenci-me de que, encarado assim, um Museu é realmente tão util como uma escola...
Existe nesta cidade um edifício desocupado – é a capela do antigo convento de Santo António – pertencente ao Ministério da Guerra...Para que tal ideia se realise, deverá ser pedido ao Governo a concessão da dita capela...Fico inteiramente e graciosamente à disposição da Camara para:  - Dirigir a installação dos objectos no Museu, offerecendo
parte da minha colleção archeológica e  depositando lá a outra parte. – Promover o desenvolvimento do Museu, continuando a realisar explorações e a recolher objectos...”
Na sessão de 8 de Abril desse ano (1908), a Câmara Municipal aprovou a proposta da criação do Museu. Vicissitudes várias com a cedência da capela e com as obras de restauro da responsabilidade da Câmara Municipal, empurraram a inauguração do Museu para 17 de Abril de 1910. Francisco Tavares Proença júnior sempre atento e interventor em todo o processo, durante a fase final aqui trabalhou intensamente. Sem festa e sem discursos, ficou o Museu aberto ao público. Da sua enorme relevância e valor cultural se dará conta proximamente.

19/10/2016
 

Outros Artigos

Em Agenda

 
08/02 a 06/04
Este Outro País Museu do Canteiro, Alcains
07/03 a 31/05
Memórias e Vivências do SentirMuseu Municipal de Penamacor

Gala Troféu Gazeta Atletismo 2023

Castelo Branco nos Açores

Video