9 de dezembro de 2015

Antonieta Garcia
Refugiados - um olhar

Será que entendemos realmente a barbárie que cerca os refugiados? Vemo-los, depois de vencida a viagem, serem recebidos como um fardo; alguns governos expulsam-nos, protegem-se com arame farpado, novas muralhas em defesa sabe-se lá de quê… Marcham por caminhos velhos, são armazenados em espaços exíguos para tanta gente. Querem ser os primeiros a entrar nos comboios, para respirar junto a uma janela. Para onde vão?
Crianças, mulheres e muitos jovens iniciaram, há muito, uma errância, com destino desconhecido. Cada pessoa traz colada à pele, uma existência doída, assustada; une os refugiados um território interior e um mesmo fio de esperança: poder viver sem o sangue, o medo, a injustiça, e a incerteza da guerra. Há uma garra que aperta o peito, estrangula.
Os anfitriões amedrontam-se; o desconhecido aflige. Que fazer? Entregam-se, ao debate de assuntos políticos, filosóficos, religiosos... e vão adiando decisões.
Detentores de várias culturas, com diferentes mentalidades, guardam nomes estranhos; a língua não facilita a comunicação. Babel anda ali, inteirinha, em castigo de divisão, em culpa de desentendimentos. Vozes misturam-se. Todavia, países europeus, multiculturais alojaram diásporas, ao longo da sua história; às vezes, criaram espaços de tolerância, de convívio enriquecedor e de diálogo. O que mudou? Um grupo de loucos recuperou a ideia de matar, em nome de Deus. Como foi possível, conhecido o percurso da humanidade, sobrarem gentes que elegem líderes “super-homem”, defensores de purezas, tais e tantas, que manda o pudor que se calem? O ódio resiste na história do mundo.
O fundamentalismo, a defesa intolerante da ortodoxia são devastadores; apontar como bode expiatório, como origem de decadência moral, outras culturas, outras fés, inquietam, de novo, o nosso tempo.
O caleidoscópio cultural e religioso é uma proposta vital para o ser humano, para a criação de uma polis multicultural, respeitadora do individual e do universal.
Na memória dos refugiados, nos peregrinos de terras a haver, nunca se apaga o calendário de tristezas, a dor da perseguição por serem fiéis a outras fés. Entre os algozes o sentimento de culpabilidade há muito que se extinguiu.
Contam com cumplicidades perturbadoras, com os que lavam as mãos:
- Fizemos o que pudemos! Quem sabe se entre os refugiados não vêm terroristas que matam a torto e a direito? Da última vez, em Paris, não há muito tempo…
Falamos de gente cuja vida foi interrompida, não por uma qualquer fatalidade, mas porque outros homens negaram a sua condição humana. Senhores do Juízo final, atribuíram um espírito pecador, delinquente, criminoso… e mataram.
Tormento maior, imenso é o que habita na memória dos que sofreram a guerra e agora buscam refúgio, sobrevivência.
Como não tentar a amnésia? Dia após dia, naufragam, são resgatados do mar, caminham, o frio a anunciar o Natal ultraja, a fome, os odores, os andrajos converteram-se no pão nosso de cada dia. Imagens banais? Realidade ou ficção? Atuação frívola…
A banalidade do mal, como a qualificou Hannah Arendt, anda à solta; entretanto, pensar acriticamente, silenciar a consciência estriba o terror. Os carrascos perante ordens que sentenciam como divinas… não distinguem o bem do mal e trucidam.
Em tempo de tirania, há um ponto de ignomínia, de vilania a partir do qual não há regresso. Homens radicalizados exercem o mal sobre outrem e corrompem, contaminam o que os rodeia.
Como observar sem raiva, as decapitações, como não estremecer perante monstros que elegem como ponto de honra exterminar tudo o que é diferente? Como pactuar com o despudor violento com que executam ordens a coberto do que qualificam como “vontade de Deus”? A saga dos milhares de refugiados que atravessam o Mediterrâneo tem este sinistro pano de fundo: a ameaça de um massacre que supera a razão, a compreensão da experiência humana. Impotência, ganância e cobardia impedem que se rompa esta cadeia de sofrimento, se faculte o futuro a crianças, mulheres e homens ameaçados de morte…
As aflições humanas não se compadecem com o atraso de decisões estandardizadas, legislativas. Os déspotas radicais não podem aniquilar a civilização. A cultura animi pode iluminar janelas e vitrinas, atalhar a via-sacra antes que se traduza num Gólgota. Senão… ai dos sonhadores, dos criadores, dos heterodoxos, dos diferentes… Quando vence a proposta de anorexia mental e se arruína a dimensão do desejo da igualdade, da fraternidade, da liberdade… Ai de todos nós, ai da Europa!

10/12/2015
 

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