Fernando Raposo
A Esquerda não pode falhar
O Presidente da República decidiu não estar presente nas comemorações do 5 de Outubro, data em que os republicanos puseram fim à monarquia. A revolução iniciara-se na madrugada de 4 de Outubro de 1910. De um lado, militares do exército e da marinha, dirigentes civis e muitos populares armados; do outro, o exército fiel à monarquia tentava a todo o custo pôr termo aos revoltosos. Tiro para cá, tiro para lá, mas as tropas leais ao monarca acabam por capitular e logo no início da manhã de 5 de Outubro, José Relvas, acompanhado por outros membros do partido republicano, sobe à varanda da Câmara Municipal de Lisboa e proclama a República.
Pusera-se fim à monarquia e o rei, D. Manuel II, tirara bilhete na Ericeira e partira para o exílio em Inglaterra.
Cavaco Silva faltou às comemorações do dia que lhe deu a oportunidade de ser Presidente da República. Falta incompreensível e injustificada.
Tivesse a ”coisa” dado para o torto e hoje teríamos, talvez, no lugar de Cavaco Silva, o herdeiro do trono, D. Duarte de Bragança. Homem de ar singelo e sereno que, perante os vários cenários resultantes das eleições de 4 de Outubro, é convicção minha, teria, pelo menos nas palavras, evitado acicatar ódios e dividir os portugueses.
Talvez D. Duarte de Bragança se limitasse a indigitar Passos Coelho, com o argumento de que teria sido o líder da coligação que obteve mais votos e isso bastar-lhe-ia.
Não teria caído na tentação de excluir bloquistas e comunistas da possibilidade de fazerem parte de uma solução de governo, contrariando o conceito de “arco da governação”, tão ao jeito dos partidos que, em alternância, têm governado o país. Não teria tentado, certamente, dividir os socialistas, nem incitar deputados à rebelião.
Papel triste o do Presidente da República, que se deixa condicionar por fidelidades partidárias, incapaz de uma atitude isenta e imparcial.
Já na tomada de posse do seu segundo mandato, Cavaco fizera um ataque feroz ao governo de José Sócrates e agora, que está de abalada, despede-se com um ataque ainda mais violento ao PS e aos partidos à sua esquerda, como se estes fossem constituídos e dirigidos por gente sem princípios ou com menor respeito pela democracia.
Se é verdade que constitucionalmente, e por tradição, o Presidente da República indigita o líder do partido mais votado como primeiro-ministro e o convida a formar governo, não é menos verdade que a viabilidade e estabilidade desse governo dependerão necessariamente dos apoios que conseguir no Parlamento.
Na última legislatura, em que a coligação era suportada por uma maioria muito confortável, Passos e Portas recusaram-se a ouvir e a acolher quaisquer propostas da oposição, revelando uma enorme falta de cultura de compromisso. O resultado das suas políticas é bem conhecido da grande maioria dos cidadãos. E estes, nas eleições de 4 de Outubro, preferiram (talvez por prudência e de modo a evitar outros abusos, mais prepotência e arrogância) dar a maioria dos votos aos três partidos da oposição, castigando deste modo a coligação.
As divergências programáticas profundas entre a coligação e o Partido Socialista e a atitude imprudente do Presidente da República tornam improvável, se não mesmo impossível, qualquer entendimento com a direita, pelo que qualquer solução passará inevitavelmente pela construção de consensos à esquerda.
Não vale a pena assustar os portugueses de que o Bloco de Esquerda, o PCP e os Verdes são contra a Europa e o euro, contra o Pacto de Equilíbrio Orçamental ou contra a Nato, porque estas são matérias em que não haverá consenso com o Partido Socialista, pelo que não serão sequer objeto de discussão. O que importa é assunção de compromissos em torno daquilo que neste momento é essencial para o país e que se traduz em poucas palavras: revalorização e dignificação do trabalho, defesa do Estado Social e Segurança Social. É quanto basta para um entendimento à esquerda.
Agora que o Bloco de Esquerda, o PCP e os Verdes são chamados, pela primeira vez, a fazer parte da solução de governo, não há lugar para erros. O futuro do país ficaria comprometido e o PS e os partidos à sua esquerda seriam no futuro fortemente penalizados.
Por isso, a Esquerda não pode falhar.