Fernando Raposo
Porque hoje é Natal
Desta vez, porque é Natal, não vou falar-vos de política.
Porque este é um tempo de paz, de amor e de reconciliação, vamos esquecer que jamais alguma vez Passos e Portas estiveram no governo e foram “abençoados” por Belém.
Vamos esquecer que a Troika por cá andou e nos impôs o SEU programa de ajustamento ou de assistência financeira que empurrou o país para a miséria e que Christine Lagarde, do FMI, já veio reconhecer que “calculou mal o impacto da austeridade na economia” (Público) e cujas consequências para a vida dos portugueses foram dramáticas.
Porque hoje é Natal, vamos esquecer que os portugueses foram vítimas de uma enorme crueldade. Vamos esquecer que muitos perderam o emprego, a casa e vivem hoje abandonados à sua sorte e sem qualquer apoio do Estado e que a taxa de desemprego atingiu níveis impensáveis (só o desemprego jovem atingiu, no final de 2013, os 38,1%), que muitos dos jovens, dos mais qualificados, tiveram de partir em busca de emprego. Terão sido à volta de 400 mil, os portugueses que tiveram de emigrar desde que Passos assentou arraiais em S. Bento. Ainda maior do que aquele número foram os postos de trabalho destruídos.
Vamos esquecer que na administração pública, o desemprego foi ainda mais acentuado, tendo perdido nestes últimos anos aproximadamente 80.000 trabalhadores.
Porque hoje é Natal, vamos esquecer que também por cá, como na Grécia, muitos portugueses morreram à porta das urgências, por falta de assistência. E se agora se morre mais é porque o serviço de saúde público foi desmantelado e não tem agora capacidade de responder em tempo útil e de modo eficiente.
Vamos esquecer, que apesar do governo de Passos ter acumulado de dívida aos credores mais 41.177 mil milhões de euros relativamente a 2011 (a dívida pública era, em 2011, de 183,3 mil milhões), estima-se que aproximadamente 150 mil portugueses se encontrem em risco de pobreza e são muitas as crianças que “engrossam” este número. Muitas delas, dezenas de milhar, perderam o abono de família e muitos idosos, muito para cima dos 100 mil, perderam o complemento solidário.
Numa linguagem simples, em Portugal o rendimento dos 10% mais ricos é quase 10 vezes superior ao rendimento dos 10% mais pobres.
Mas vamos esquecer tudo isto, porque hoje é Natal, é tempo de paz e de reconciliação.
Vamos esquecer que a generalidade das empresas públicas, como a EDP, a REN, a ANA, a CP Carga, os CTT, etc., foi vendida.
Porque hoje é Natal, vamos esquecer que o descalabro do BES se deu nas barbas da Troika, tão zelosa e diligente a impor sacrifícios aos portugueses, e tão indiferente, senão mesmo conivente, com aos devaneios da banca. Façamos de conta que Cavaco Silva, conforme nos recorda Fernando Paulouro (blogue), não disse sobre o BES que a “situação era sólida e catita…enganando e desgraçando muitos portugueses,”.
Porque hoje é Natal, vamos esquecer que a direita mais conservadora de que há memória em Portugal, escondeu propositadamente o problema do Banif, sob o olhar cúmplice de Cavaco Silva, apenas por razões eleitoralistas.
Porque hoje é Natal, vamos esquecer que por causa desta maldita direita, vamos pagar com língua de palmo os devaneios do BES e certamente do Banif, e do negócio atabalhoado da TAP que, apesar dos inúmeros apelos vindos dos vários quadrantes políticos e sociais, insistiu em privatizar.
Porque hoje é Natal, vamos ter esperança no futuro.